terça-feira, 12 de abril de 2011

Viva!


Tudo aconteceu num daqueles dias de encontro consigo mesmo.

Sentado na areia, contemplando o vai vem das ondas: só pensando.
O mar tem este poder mágico de nos encantar e nos chamar à reflexões.
Olhando muito além do infinito horizonte que divide céu e mar, fui surpreendido
por um brilho ofuscante: Uma garrafa que, calma, flutuava como barco à deriva, sem rumo certo.
Como um inseto dominado pela luz, não conseguia tirar os olhos da luz refletida.
O ecologista logo se irritaria a pensar no lixo que levaria séculos para se decompor.
O poeta logo pensou: uma daquelas garrafas de filme com uma carta em seu interior.
Continuei ali, seduzido pelo objeto que navegava refletindo a luz intensa do sol.
Quando fechava os olhos, um ponto luminoso invadia a escuridão que se formava dentro de mim.
Inerte diante dos meus desatinos oníricos, forçava meu pensamento a chamar o vidro em minha direção.
Sentia-me um sensitivo poderoso fazendo aquele brilho chegar às minhas mãos.
Ele veio, trazido por uma onda espumante, que por um instante ofuscou seu reflexo e logo se dissipou, fazendo a garrafa brilhar novamente, me convidando a pegá-la.
Por acaso ou destino, sua translucidez revelava todo o seu interior: lá estava o papel enrolado, exatamente como imaginava que fosse.
Abri a garrafa, puxando devagar a rolha que vedava o segredo escondido em seu íntimo.
Improvável, inimaginável, mas possível. Eu era testemunha viva e a magnitude e a irrealidade do momento só a mim me interessava.
Desenrolei, com cuidado e paciência, o papel amarelado pelo tempo e pude ler o seu conteúdo escrito numa máquina de escrever:

“Fui muito feliz durante poucos anos de minha vida.
Todos eles durante a minha infância. Quando pude ser dono de mim, resolvi ser dono do mundo.
Conquistei muito dinheiro e poder.
Mas nunca joguei bola com um filho, não empinei pipa e nem joguei bolinha de gude como meu pai fazia comigo.
Agora é tarde. Sozinho, velho e doente espero a morte sem ter tido vida.
Não faça como eu: viva!”

4 comentários:

A. Tavares disse...

Nossa.
Isso foi tão forte..
Lembrei do meu pai agora, não sei porque, acho que por ele estar longe, e por ele não querer ser pai, e eu por não ter dado oportunidade a ele de me ver como uma filha.

Muito bom te ler Humberto!
Beijo!

ilana Odorico ზ disse...

como sempre uma maravilha os textos aqui do Humberto! - parabéns .

Célia Ramos disse...

O real sentido da vida está em viver momentos marcantes com as pessoas que amamos...Se não o fazemos, não há vida, porque o tempo passa voando, quando vemos, os filhos já cresceram e seguiram seu rumo...o que fica são extamente as boas lembranças de tempos felizes...amei, como sempre!

Suyan Dionizio Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.